
Há quem prefira tornar relativos certos fatos históricos para diminuir ou até demonizar a figura histórica ímpar de Winston Churchill. Dizem que ele foi o responsável direto pela divisão do mundo em dois e consequentemente pela Guerra Fria. Apontam seus erros diplomáticos para explicar o caos hoje instalado no Oriente Médio e diminuem sistematicamente sua influência na moral do povo inglês naqueles trágicos anos entre 1939 e 1944.
O fato, porém, é que Churchill foi um homem público excepcional numa época de democratas gigantes como ele, Roosevelt e De Gaulle, militares destemidos como Eisenhower, McArthur, Montgomery, Yamamoto e Rommel e ditadores loucos e cruéis tanto quanto apoiados incondicionalmente pelos seus povos, como Hitler, Mussolini e Stálin.
Churchill, nascido e criado aristocrata teve formação militar no 4º regimento de hussardos (cavalaria). Foi herói na Guerra dos Boeres onde empreendeu talvez a fuga mais espetacular de um prisioneiro na história de todas as guerras. Também jornalista que cobriu várias das batalhas coloniais, curiosamente, ficou famoso como escritor ao publicar a biografia de seu pai, Lorde Randolph, político influente de sua época. Eleito várias vezes para a Câmara dos Comuns, iniciou sua carreira entre os conservadores, passou para o lado dos Liberais (whigs) e depois, voltou às fileiras torys. Foi ministro do comércio, do interior (o “home office”), “chanceler do exchequer” (algo como ministro da fazenda) e “primeiro lorde do almirantado” (comandante da marinha). Caiu no ostracismo político depois do erro monumental cometido no estreito de Dardanelos, batalha que quase acabou com as pretensões inglesas e aliadas na 1ª Guerra e que custou a vida de milhares de militares do reino.
Durante o ostracismo, mas ainda na Câmara dos Comuns, escreveu vários livros, como The World Crisis, My Early Life, The Easten Front. Porém, foi o tempo em que se convenceu do perigo que o comunismo e o nazismo representavam para as já então avançadas sociedades capitalistas e liberais da Europa. Mais do que isso, nunca deixou de alertar a nação para tanto, mas concentrando-se no combate sem tréguas ao nazismo, que desde cedo identificou como um regime cruel e desumano.
Diz o historiador Andrew Roberts, que naquela época, a comparação de Churchill com Hitler era singular: Churchill um velho aristocrata, conservador, militarista fracassado, beberrão e representante de tudo o que era ultrapassado na sociedade européia do entre-guerras, que discutia o efetivo papel das monarquias, mesmo que constitucionais, tendia ao isolacionismo que impediria a morte de milhares em guerras destituídas de sentido e procurava uma forma de impedir a expansão do comunismo. Hitler, por sua vez, na década de 30 era um revolucionário de vanguarda, que mudou a face de um país destroçado transformando-o numa super-potência industrial e militar, guiando o seu povo para um futuro glorioso por meio de anexações pacíficas de áreas de influência germânica e que representava um efetivo contraponto ao perigo mortal que vinha do leste gelado e tinha a face sinistra Stálin.
Aliás, não foram poucas as vezes que Churchill repetiu uma frase do Marechal Foch, da França, segundo a qual, os termos do Tratado de Versalhes representavam no máximo um armistício por 20 anos, como um alerta contra aqueles que acreditavam que a Alemanha aceitaria passivamente as humilhações que lhe foram impostas por perder a então chamada Grande Guerra.
E ao mesmo tempo ele identificou em Hitler uma personalidade instável e violenta, acompanhada de um séquito de loucos, partidários radicais de idéias escabrosas que punham em risco não apenas a liberdade do povo alemão, mas a integridade do mundo inteiro.
Em um país na época muito influenciado pelo isolacionismo da antiga colônia na América do Norte, em crise econômica e moral decorrente do fim gradual do seu império, e negligente com o equipamento de suas forças armadas por acreditar que uma nova guerra seria no máximo continental e isolada, Churchill soava como um neurótico a apontar fantasmas que não existiam e mesmo em defender um mundo que se encontrava nos seus estertores, o dos impérios coloniais.
Porém, em 1939, de berço esplêndido a Inglaterra caiu em pesadelo. Os esforços pacifistas fracassaram. Mesmo a boa intenção e vontade firme do então primeiro-ministro Neville Chamberlain com seu gabinete aterrorizado não convenceram Hitler, que celebrou um pacto militar com a Itália de Mussolini, entrou em acordo covarde com Stálin, atacou a Polônia e depois a a França e iniciou os preparos para a invasão da ilha que era o único obstáculo existente entre o nazismo e a hegemonia econômica e militar do mundo.
Então Churchill foi lembrado. Diz o mais renomado biógrafo dele, John Lukacs, que a Inglaterra estava por um fio. Se Hitler tivesse enviado um exército, seria plausível que não encontrasse grande resistência em um país cujos líderes não sabiam como agir, entorpecidos por uma série de conceitos que o ditador alemão pusera abaixo.
Mas a nação, não os políticos, reconheceu em Winston Churchill o líder de que necessitava. Os jornais passaram a citar seu nome e lembrar seus discursos e suas constantes discussões até mesmo com o próprio Partido Conservador. Em determinado momento ele foi chamado ao gabinete de guerra até que as dificuldades monumentais e os fatos isolaram a Inglaterra e derrubaram Chamberlain pela necessidade urgente de formar-se um governo de coalizão.
A Inglaterra encontrava-se só. Os EUA isolavam-se na América, a URSS omitia-se na Europa à guisa do pacto de não-agressão com Hitler, a França estava prostrada e a Alemanha, que contava com uma formidável máquina de guerra construída durante os anos de cegueira pacifista, ainda tinha no continente aliados formais, como a Itália e informais, como a Espanha. Porém, a vitória na guerra se iniciou naqueles dias trágicos, mais precisamente em 13 de maio de 1940 quando numa Câmara dos Comuns ainda dividida Churchill proferiu o célebre discurso do “Sangue, trabalho duro, suor e lágrimas” onde também reafirmou sua certeza acerca dos desígnios macabros dos nazistas que obrigatoriamente traçavam a vitória como único objetivo da nação “pois sem a vitória não há sobrevivência”.
Para se ter uma idéia do que Churchill representou àquele país e ao mundo naquele momento, é interessante ler uma passagem contada pelo biógrafo Roy Jenkins:
“Churchill, o primeiro-ministro mais claramente da classe alta desde o fim do governo de Balfour, trinta e cinco anos antes, foi também aquele cuja autoridade mais proveio do clamor popular. No dia de sua recepção tão pouco entusiástica pela Câmara dos Comuns (mesmo esta tendo dado a seu governo um voto de confiança sem nenhuma dissidência), David Low, notável cartunista da esquerda dos anos de 1930 e 1940, publicou no Evening Standard um famoso desenho que formou opinião. Coisa rara, não continha nenhum tom de brincadeira. Era Churchill de mangas arregaçadas, marchando à frente, resoluto e seguido de Atltee, Bevin, Chamberlain, Greenwood, Halifax, Sinclair, Morrison, Eden, Amery, Duff Cooper, A.V.Alexander e uma multidão de seguidores anônimos, todos devidamente com mangas de camisa para o trabalho. “Todos com você, Winston” - era a legenda”. (*) Tenho comigo que neste momento Churchill não representava apenas o Partido Conservador, nem a Câmara dos Comuns e muito menos o Governo de Sua Majestade. Churchill representava a nação inglesa que optou por não se acovardar e que preferiu as maiores provações à rendição a ponto de, em 04 de junho de 1940, com a humilhante retirada em Dunquerque, o primeiro-ministro lançar, não só em seu nome, mas em nome da Inglaterra, o desafio: “We shall never surrender” (Nós nunca nos renderemos!).
É verdade que tenho imensa admiração pela figura histórica de Churchill, que certamente, dentro da condição humana de todos nós, cometeu erros e até injustiças. Porém, quando a história da humanidade assim exigiu, ele foi o homem certo, no momento e local certos e mesmo com toda a pressão que isso pudesse representar para um alguém então quase septuagenário. Ele preferiu lutar antes de assumir a cômoda posição de dizer que havia avisado e zarpar para um exílio em outro continente.
Se fosse possível resumir a história de Churchill em uma única palavra, eu usaria a mesma que o escritor William J.Bennett usou em seu “Livro das Virtudes”:
CORAGEM!(*) Churchill - Editora Nova Fronteira, 1ª Edição, 2ª Tiragem, 2002, p. 542.
Mais sobre Winston Churchill:
BALL, Stuart - Vidas Históricas da British Library - Winston Churchill.
Edição brasileira da Nova Fronteira. 2006
CHURCHILL, Winston Spencer - Memórias da Segunda Guerra Mundial.
Edição brasileira da Nova Fronteira, 1995.
JENKINS, Lord Roy - Churchill (Biografia).
Edição brasileira da Nova Fronteira, 2002.
LUKACS, John:
- Churchill - Visionário, Estadista, Historiador.
Edição brasileira de Jorge Zahar Editor, 2002.
- O Duelo: Churchill X Hitler.
Edição brasileira de Jorge Zahar Editor, 2002.
- Cinco Dias em Londres.
Edição brasileira de Jorge Zahar Editor, 2001.
ROBERTS, Andrew - Hitler X Churchill - Segredos de Liderança.
Edição brasileira de Jorge Zahar Editor, 2004.
Quero dizer aos meus leitores que esse texto, que não trata apenas de uma figura histórica, é justamente para tratar da coragem, pois percebi que o mundo em que vivemos hoje, é o paraíso dos covardes que se escondem atrás de gangues, de torcidas organizadas, de quadrilhas de traficantes, de movimentos sociais corruptos, de grupos terroristas e de partidos políticos mentirosos.