Uma das razões pelas quais abri Prédica e História é me obrigar a reler muitos dos (bons) livros que coleciono, ou pelo menos trechos deles, além de escutar mais atentamente meus CD(s), ou, ainda, fazer pesquisas na internet. Enquanto no meu blog, digamos, tradicional (se é possível algo ser tradicional com pouco mais de um ano de existência) comento assuntos que estão nos jornais, aqui, eu prefiro os devaneios da cultura.E escrevo isso, porque hoje, relendo uma parte de Saudades do Século XX, de Ruy Castro, resolvi dar uns pitacos sobre ele, “The voice”, “Blue Eyes”, o único artista capaz de rivalizar com Elvis Presley em brilho na constelação dos gênios da música, claro, “mister” Frank Sinatra.
Todas as vezes que penso em Sinatra, um tique me faz compará-lo com Elvis. E a consequência disso é constatar que Sinatra não foi feito para ser apreciado como ídolo popular, apesar de ter sido muito mais que isso.
Quando lembro de Sinatra, me vem à mente uma aula de história na minha adolescência aqui nos subúrbios de Curitiba, quando um professor que até hoje é meu amigo desancou a figura do cantor ao afirmar que ele sequer teria usado papel higiênico produzido no Brasil, quando veio se apresentar no Maracanã em 02 de fevereiro de 1980, após boatos insistentes de que uma vidente o teria desautorizado a tanto, porque se viesse ao Brasil, morreria!
Vamos por partes sobre essas impressões:
Elvis foi o maior e ponto final!
É bem verdade que têm muito adepto de Sinatra que vai declarar ódio eterno a este que vos escreve por conta dessa frase insolente, que bem mereceria uns belos cascudos dele que, segundo os biógrafos, dava um boi para não entrar numa briga, mas negociava boiadas para não sair.
Mas eu alivio e faço reverência. Segundo consta, Elvis, imaginem, babava de admiração pelas interpretações musicais de Sinatra, sem contar que jamais chegou ser um ator efetivamente reconhecido, ao contrário do "italiano" de Hoboken, que levou dois Oscar (um honorário) em sua vitoriosa carreira cinematográfica, que, por sinal, salvou-o da depressão para torná-lo um artista mundialmente famoso, após sua fase de vacas magras entre 1949 e 1953.
Já em relação ao desvario suburbano do meu professor, eu devo lembrar aos leitores que Sinatra, um homem reconhecidamente de classe, elegante, bem vestido, de boas maneiras (salvo quando o sangue italiano fervia) e um mega-sucesso entre as mulheres de todas as idades, não era exatamente uma figura simpática, que dizer para pessoas simples como eu e meu professor naquela época, ainda longe (eu, pelo menos) de uma necessaria sofisticação cultural para reconhecer no “Blue Eyes” um grande ídolo.
Muita gente falou mal de Sinatra. Vale lembrar que a cadeia de jornais Hearst, uma pequena Rede Globo na época, não nutria nenhuma boa vontade por ele, mesmo com sua aveludada voz. Daí que durante sua vida foi chamado de playboy, brigão, beberrão, mafioso, mulherengo, cafajeste, vira-casacas da política e um monte de outros adjetivos pouco cabíveis a alguém do Olimpo artístico.
Enfim, para gostar de Sinatra, é preciso ter pelo menos um pouco da sofisticação dele, que por sua vez, nunca teve vocação para ser bom moço, que era uma espécie de requisito ao estrelato naquela época, paradigma que ele quebrou, mas que explica o bom número de detratores.

Porém, quem conhece um pouco da história dele acaba constatando que embora não um bom moço, estava longe de ser tudo o que apregoavam as más vozes. Saberá, por exemplo, o apreço pelos amigos, especialmente do”Rat Pack” (Dean Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford, Shirley McLaine e Joey Bishop), a paixão avassaladora por Ava Gardner, a quem ajudou no sustento pelo resto da vida e por quem entregou praticamente todo seu patrimônio para a conseguir o divórcio da primeira esposa (sem jamais deixar de ser amigo e nutrir carinho por ela), ou, ainda, o engajamento político contra o racismo e os direitos civis, que o levaram a arrecadar fundos para a campanha de Kennedy à presidência, e, bem mais tarde, aderir aos republicanos de Reagan no início dos anos 80, para ajudar a recuperar a auto-estima do país, em baixa à guisa da recessão econômica e da Guerra do Vietnã. Enfim, Sinatra teve defeitos mas nunca abandonou as virtudes.
Tratar dele, implica necessariamente em lembrar de suas atuações cinematográticas competentes, como “A Um Passo da Eternidade” que lhe recuperou a carreira destroçada entre 1949 e 1953 pela avassaladora e destrutiva paixão por Ava, por quem deixou de lado a família, reputação, patrimônio, carreira e amor próprio. Eu também citaria “Hight Society” e o hilariante “Robin Hood em Chicago”, nos quais contracenou com seu ídolo de infância, Bing Crosby, outro gigante da música americana.
E Sinatra, mais que tudo, foi um tremendo cantor se me permitem o lugar comum.
Decidiu sê-lo ainda criança mesmo a contra-gosto dos pais e se dedicou a isso a vida inteira, porque pretendia ser o novo Crosby (que, convenhamos, deixou na poeira em termos de popularidade). Consta que fazia exercícios prendendo a respiração dentro de uma piscina para fortalecer o fôlego, sem contar que aprendeu a técnica musical na melhor escola, a das “Big Bands”, pois cantou na Orquestra de Tommy Dorsey, concorrente de nada mais, nada menos que Glenn Miller. Atravessou o século XX ganhando “Grammys” (23, ao todo) e sendo reverenciado pelo mundo afora, inclusive no Brasil, onde recebeu 150 mil expectadores na noite de gala do maior público até então presente a um show solo na história da humanidade.
Sinatra assumiu uma vaga permanente no Olimpo da música em 14 de maio de 1998, deixou um legado de boa música e uma biografia incomum - um ser humano amado por muitos e odiado por outros tantos, mas com um lugar na eternidade, de quem esteve a vida inteira a apenas um passo.
MAIS SOBRE FRANK SINATRA:
- CASTRO, Ruy - Saudades do Século XX - Cia das Letras, 1994.
- ZEHME, Bill - Frank Sinatra - A Arte de Viver - Ediouro, 1998.
- MEYER, Cybele - Era uma vez um mito chamado Frank Sinatra - in duplipensar.net
PS: Veja algumas imagens e ouça algumas canções ba barra de vídeos ao lado.
14 comentários:
Acho que ele e o Elvis são músicos com carreiras bem distintas e talentos distintos também. E com certeza os dois se renderam ao talento do outro. Música boa é assim, recebe influências e com certeza vai influênciar as novas gerações. Abraço
Adoro Frank Sinatra, as músicas a letra... e olha que não sou nem um pouco romantica...mas escutando Sinatra me esqueço disso. Adoro os filmes dele, por sinal tenho os que o meu pai me deu!! Belo post!! bjs
Sou fã dos dois. Elvis remete a um tempo de ingenuidade, às saias godês e roquinhos leves; já o Sinatra, leva-me à sofisticação dos salões de baile, dos lindos vestidos de noite e os senhores de smoking ouvindo e dançando ao som das grandes orquestras... hummm... acho que estou um pouco saudosista, hoje!
Belo post, como sempre!
Beijo, querido irmão!
Claro que já vi filmes com ele... mas nunca fui fã da "voz", bizarro não?
e ioncluí lá nos links culturais e afins no indignatus e no cor.
Elvis ficou amigo de Sinatra deste qd ele o convidou para seu programa ao voltar do exército.Nancy Sinatra foi apaixonada por Elvis.Cantaram juntos em um momento inesquecível na música americana.Depois, dizem , que Elvis cantava May Way, fazendo referência a Sinatra mas soltava a voz para mostrar que a sua era mais potente.Elvis comprou o seu primeiro avião porque Sinatra o incentivou ao alugar o avião dele.Tenho muitos discos de Sinatra e ele veio ao Brasil para fazer parte do Livro dos Recordes,cantando no Maracanã para a maior platéia da época.
Como neste comentário não tem a opção OUTROS vou deixar o meu blogspot.
Ambos grandes ídolos, fizeram história na música. Nem dá pra dizer quem foi maior. Às vezes fico pensando que apesar de Renans et caterva, tivemos pessoas maravilhosas e que deixaram um legado inestimável.
Fabio,
Vim retribuir a visita e conhecer seu blog. Parabéns, adorei os temas e a forma como você escreve. Sobre Elvis e Sinatra, sem dúvida dois ídolos inesquecíveis que fizeram história e deixaram marcas por onde passaram.
Beijos,
Rosana
Oi Fábio!
Estou retribuindo a sua visita ao meu blog e gostaria de dizer que gostei muitos dos seus dois! Voltarei sempre agora...
Vc conhece o blog da Baby-Fazendo a Diferença? Ela também aborda assuntos históricos como vc.
http://baby-fazendodiferenca.blogspot.com/
Abraços e tenha uma ótima semana!
Adriana
Figura incontronável, memorável e que estará sempre na memória da sua geração.
teste
Tudo bem Fábio? Meu nome é Roberto Carvalho e aqui me intitulo "Sinatra" se me permite,pela incrível admiração que tenho por ele.Bem, sou de Fortaleza-Ce, tenho 42anos e entro aqui em seu Blog pela primeira vez, pois sempre faço pesquisas de Sinatra na net e hoje achei esse seu comentário sebre meu idolo. Achei muito legal suas colocações, muito inteligentes e até conciliadoras..rs..O que acho de Sinatra? Ou melhor, o que acho de Sinatra em relação a Elvis?
São estilos diferentes, tom de voz diferente, pois Sinatra era Barítono e Elvis não. Ambos com um talento invejável, personalidades impáres e cada qual com seus problemas também. E porque prefiro Sinatra? Primeiro por um gosto pessoal que me fez com 14anos pedir aos meus pais que me levassem ao Rio para ver Sinatra... isso, eu estavá lá no Maracanã, cantei, chorei e vibrei ao ver meu idolo ainda naquela época, segundo pelo fato de eu DETESTAR DROGAS e achar que Elvis nesse aspécto foi um mau exemplo para a juventude que adorava-o. Sinatra pelo contrário, pagou todo o tratamento de Sammy Davis Jr. e ainda ameaçou cortar seu laço de amizade com ele, caso ele voltasse as drogas.Sinatra era sim difícil, mas um EXCELENTE PAI, um EXECELENTE EX-MARIDO e um homem que zelava até o fim pelas verdadeiras amizades..é isso caro Fábio, gostei de seu Blog e adoro Sinatra..mas nada também como ouvir LOVE ME TENDER na voz de ELVIS..rs...obs. Sou casado, um ótimo pai de 4 filhos, e um ótimo marido..rs...abraços..Roberto Carvalho
Sinatra,
Uma pena que vc não deixou link de retorno, Sinatra (o verdadeiro) dá azo a boas conversas, não?
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