Esse texto saiu no jornal RaioX em 2002, quando a Globo veiculava a mini-série "Os Quintos dos Infernos", que versava sobre a côrte portuguesa no Brasil. O leitor poderá fazer paralelo com o filme Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, mas a obra da diretora Carla Camuratti não incorreu nos erros grosseiros e na falta de respeito que a Rede Globo escancarou na citada mini-série.A mídia americana trata com deferência os ícones de seu país, produzindo programas educativos, filmes épicos e publicações que mostram a história sob o ponto de vista dos interesses dos EUA. Faz questão de prestar homenagens a quem realizou algo pelo país, alimentando o que os americanos tem de mais admirável - o patriotismo - representado pela defesa intransigente dos interesses nacionais pelos cidadãos comuns.
Um bom exemplo é o filme "Nixon". Richard Nixon foi o único presidente americano que sofreu um processo de cassação, decorrente não de corrupção própria, mas de um crime praticado por assessores. Pois bem, o filme retrata a história do crime e do processo vivido pelo presidente, mas ao mesmo tempo é honesto em demonstrar as grandes realizações que a figura histórica conquistou para o país. A obra não cria uma máscara, relata o crime, o processo e a renúncia, mas ao mesmo tempo agradece ao ex-presidente por tudo de bom que ele fez pelos Estados Unidos.
Faço essa introdução para demonstrar como o Brasil desvaloriza seus ícones históricos. Aqui, a mídia despreza as pessoas e os fatos importantes da construção da nossa nacionalidade, preferindo pintar o país como um antro de imorais, espertalhões e vagabundos, no qual jamais existiu qualquer dignidade e inteligência.]
Um exemplo é a minissérie "O Quinto dos Infernos". A Rede Globo usa a história para alavancar audiência, mostrando um festival de bundas e peitos que retrata a corte portuguesa e o Regente D. João VI como um grupo de devassos, ineptos, corruptos e safados de um modo geral, fazendo piada do Brasil, e destruindo qualquer deferência que nosso povo possa vir a ter em relação a qualquer ícone de nossa evolução social.
Para a Rede Globo, D. João VI foi um verdadeiro idiota, incapaz de tomar uma única decisão importante, o que nem de longe é verdadeiro.
Se é fato que ele fugiu de Lisboa com a corte, há que se considerar que fez isso para preservar a coroa e o próprio pescoço, pois Napoleão Bonaparte era pródigo em "nomear" outros Bonapartes como imperadores dos países conquistados, dando um "jeito" nos monarcas legítimos. Após a Era Napoleônica, porém, D João VI voltou ainda governante para a sua capital, o que demonstra que a cautela em "fugir", lhe garantiu o reinado, a cabeça e a dignidade.
A Rede Globo também esquece, no meio de tantos bordéis, camas, palheiros e pilhérias, de mostrar o enorme progresso que o Brasil experimentou com a chegada da corte de D. João VI. Nossa história como nação iniciou-se com a abertura dos portos aos países amigos, pois não existe país sem comércio internacional. Por outro lado, D. João lançou as bases do estado brasileiro, de um governo que administrasse o crescimento do país e mesmo sua evolução social, sem contar as obras de natureza cultural, como a Biblioteca Nacional (graças à fundação secular, hoje uma das 10 maiores do mundo), o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, a Imprensa Nacional etc...
D. João VI não foi herói, foi um ser humano com os defeitos inerentes à tal condição. Certamente cometeu erros e deslizes morais, mas nada, absolutamente nada deve tirar dele o mérito histórico de dar o pontapé inicial em favor da independência do Brasil, lugar pelo qual, dizem os historiadores, ele nutriu amor sincero, só voltando para Portugal por contingência, visto que era um governante, cujas ações não poderiam ser movidas apenas pelos interesses pessoais. Em qualquer país sério sua figura histórica seria intocável, objeto das mais respeitosas homenagens e da deferência de todo um povo, só que, é pena, vivemos num país que não o respeita e, pior, não se respeita!
O Brasil precisa aprender a se respeitar! Fazer humor popularesco com a história nacional seria válido se o brasileiro comum a conhecesse, o que não ocorre, e em grande parte por culpa da mídia que se acomoda em faturar à custa da ignorância das pessoas e do apelo sexual barato em novelas, programas de auditório e "reality shows". Uma mídia que idolatra bandidos e dançarinas "sexys" de "axé music" e que, para tentar demonstrar um senso de decência que não possui, se compraz em escorraçar sem provas as figuras públicas do presente ou, mais grave, do passado, mesmo quando deixaram um legado para a nação.
Um pouco de responsabilidade faria, por exemplo, que os programas educativos de TV fossem exibidos em horários menos ingratos que as madrugadas, quem sabe substituindo as loirinhas sem cérebro e de pouca roupa que despertam nas crianças a libido precoce e a compulsão de consumir quinquilharias.
Se as TV(s) querem continuar a faturar à base da ignorância involuntária dos brasileiros, pelo menos o façam sem destruir o pouco que eles conhecem de sua história, preservando os exemplos das iniciativas e o respeito pelos homens que as tiveram, e que resultaram em progresso verdadeiro, que ajudou a moldar nossa ainda tênue nacionalidade. É o mínimo exigível de concessionárias de serviço público, mormente quando elas insistem em impor uma programação desprovida de valores morais e educativos.

Dica de leitura:
SCHWARCZ, Letícia Moritz - A Grande Viagem da Biblioteca dos Reis - Edição Conjunta da Cia. das Letras com a Fundação Biblioteca Nacional.
12 comentários:
O que vc escreve ai é uma grande verdade! Sou anti americana, mas tenho que reconhecer que eles são realmente patriotas-até demais. Isso pode ser visto em diversos países. Aqui no entanto..é totalmente o contrário...fazem chacota.
Fábio, é esperar demais de um país analfabeto da própria história. Onde se afundar diante da tv é o único divertimento da maioria. Mas aqueles que fazem parte da cultura popular, principalmente com o aval da igreja, sempre estarão bem na fita.
No caso da família real brasileira, os descendentes deveriam reclamar, mas parece que teve um acordo $$$$ muito bom. Eles são os maiores interessados em manter a imagem da família e porque não fizeram?
Tenho um pessoal interesse na próxima novela da Rede Globo, que contará a história da Ferrovia Mogiana, assim como haverão outras pessoas. Espero que a história não seja subvertida.
Beijus
fábio, gostaria de saber se eh também você quem escreve no BLOG DO FÁBIO MAYER, pois admiro seu trabalho como jurista, e acho interessante esse exemplo de como os juristas devem conhecer não só direito, mas de tudo um pouco, para poder conhecer melhor o seu cliente, que é o ser humano.
Gabriel,
Sou o mesmo Fábio Mayer. Escrevo aqui, textos sem política e direito, porque estes, prefiro lá no outro blog.
E você é bem vindo em ambos, mesmo se quiser criticar com elegância.
=)
Fábio, não sou historiador mas a abertuira dos portos não foi uma condição dos ingleses para trazer a comitiva portuguesa para cá? E isso como monopólio? E fora que foram empurrados artigos absolutamente desnecessários como patins de gelo? Não entro no mérito se D João era um parvo, corno com certeza ele era, pra mim foi muito esperto em se mandar.
Ricardo,
Pode ser, até acho que a aristocracia portuguesa não queria dar asas para o Brasil.
Mas não custa lembrar que D João podia ter se mandado pra Moçambique ou Angola e deixado o Brasil de lado...
Até que enfim meu Jesus amado. Morri de rir com O quinto dos Infernos mas foi complicado explicar para Bernardo que era piada e a coisa nao aconteceu bem assim. nao sei pq essa necessidade de avacalhar noassa história e depois quando alguém de fora arrasa com o Brasil ficam todos cheios de nao me toque
Pior de tudo é que tem tanta gente que eles poderiam avacalhar, e não o fazem. Muito pelo contrário.
Na verdade, com a República tornou-se algo corriqueiro desmerecer a família imperial, e Dom João foi um dos alvos preferidos. Hoje já se começa a fazer justiça à sua figura, que como vc bem disse foi um ser humano passível de fraquezas. Muito bom!
Fábio, muito interessante a iniciativa do blog. Comungo das mesmas idéias suas em relação às tvs de canal aberto, principalmente a Rede Globo de Televisão, principal responsável pelo surgimento de uma geração alienada, que não discute, não critica, e simplesmente abre involuntariamente seus cérebros mal "oxigenados" para os "vômitos globais". Mas discordo de você em relação à sua resposta ao comentário do Ricardo Rayol postado em 03 de setembro último, quando você diz que D. João VI poderia ter ido para Angola ou Moçambique, como se escolhesse o Brasil em virtude de seu clima e natureza aprazíveis. Bom, como na história nada é exato, compartimentalizado, acredito que D.João VI escolheu o Brasil como refúgio em virtude de sua condição como principal colônia subordinada ao reino português.
Que incrivel ver um brasileiro defendendo D.João VI!Gostei de tudo ,especialmente de sua análise da cultura televisiva,rsss.Penso que realmente a corte portuguesa terá escolhido o Brasil,como diz o Fernando,pq era a principal colónia portuguesa.Li faz pouco tempo:Império à deriva"-Patrick Wilcken.Foi bom vir aqui e continuar a aprender a históriados nossos antepassados.
:))
Quem esculhamba com tudo são os imbecis para ganhar audiência.Ainda bem qeu o povão não assiste essas baboseiras.
Rio de Janeiro, capital de Portugal
"Ele foi o único soberano da Europa que teve a firmeza e a sabedoria de fazer precisamente o que devia", disse James Ligham, acerca da decisão do príncipe Regente de retirar a Corte para o Brasil.
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Desde meados do século XVI, o Brasil surgia como uma terra da promissão, um horizonte infinito para uma expansão, que mitigada na Europa pelas contingências geográficas, políticas e demográficas, levava o reino português a procurar no além-mar, novas fronteiras propiciadoras pela aventura dos Descobrimentos. Martim Afonso de Sousa, o grande impulsionador da ampliação do domínio e da colonização lusa nas terras de Vera Cruz, foi talvez, o primeiro a vislumbrar as imensas possibilidades oferecidas pelo novel domínio, aconselhando D. João III à simples e efectiva transferência da sede da Monarquia, para a recém descoberta colónia.
Após Alcácer Quibir e reconhecendo implicitamente a primazia legal dos direitos de D. Catarina, duquesa de Bragança, à sucessão do trono, Filipe II de Espanha, parece ter considerado seriamente a entrega do domínio americano à Casa de Bragança, em troca da efectiva posse do território português na península ibérica. A Restauração de 1640, ocorreu num momento difícil de total despojamento material da nação, levando o Pde. António Vieira a preconizar a opção brasileira, garantindo a criação de um verdadeiro império, dada a extensão territorial das conquistas, a ausência de inimigos directos nas fronteiras e uma privilegiada situação no Atlântico, o novo grande palco do confronto naval pela supremacia entre as grandes potências. D. Luís da Cunha, foi outro entusiasta desta solução, procedendo a uma copiosa e exuberante enumeração das vantagens decorrentes, garantindo uma nova dimensão ao poderio português, libertado desta forma, das peias que uma situação geográfica difícil e a ausência de recursos, ditava um paulatino e inelutável declínio de Portugal como factor relevante na Europa.
No século XVIII, a instabilidade no precário equilíbrio europeu, fez eclodir guerras nas quais todo o continente se envolveu de forma directa - Guerras da Sucessão da Espanha e da Áustria e intervenção dos Bourbon espanhóis na Itália, para nos referirmos apenas aos principais conflitos -, que inevitavelmente perturbaram a já tradicional política portuguesa de não envolvimento nos conflitos continentais. Se excluirmos uma breve e quase simbólica participação da Armada portuguesa (1717) na guerra Liga cristã contra o Império Otomano, Portugal manteve-se coerentemente ausente dos campos de batalha europeus, durante mais de cinco décadas.
A indirecta intervenção na Guerra dos Sete Anos, deveu-se sobretudo, a uma tentativa bourbónica de neutralizar o importante ponto de apoio da Royal Navy na península, essencial para o controle da navegação atlântica e colonial. Considerando seriamente as hipóteses decorrentes de uma invasão das tropas do Pacto de Família, Pombal ponderou a transferência da corte e do governo - a Soberania -, para o vice-reino do Brasil, a fonte dos recursos que permitiam a existência do próprio Estado português.
A Revolução Francesa de 1789 e a posterior ascensão de Bonaparte, destruiram a velha ordem estabelecida ao longo de séculos. Preceitos, doutrinas, convenções e modus operandi universalmente aceites pela velha diplomacia europeia, volatilizaram-se diante dos disparos da artilharia, ou jazeram para sempre esmagados pelas cargas dos couraceiros franceses que arrasaram tronos, pisotearam Estados antigos e fizeram movimentar massas populacionais de uma forma jamais vista. É hoje difícil imaginarmos o espanto e a tragédia vivida por milhões, que assistiram impotentes, ao desabar de um mundo que para a imensa maioria, era o fruto de uma ordem natural ou divina.
As sucessivas tentativas da manutenção da neutralidade, encontraram no alvorecer de 1800, uma real impossibilidade de concretização. O génio militar de Napoleão e a violência dos seus ímpetos, fizeram dissipar qualquer veleidade de estabelecimento de alianças consistentes no continente, susceptíveis de permitir, pelo menos, a contenção de um expansionismo que não conhecia limites e nem sequer garantia uma razoável moderação, no sentido da criação de uma nova ordem negociada e aceite pelo conjunto dos Estados.
Os ministros portugueses - entre os quais destacamos Domingos de Sousa Coutinho, Rodrigo de Sousa Coutinho e o marquês de Alorna -, instaram com o Regente no sentido de fazer pender Portugal, para a fidelidade à já antiga aliança com a Grã-Bretanha. Conhecendo bem a dependência portuguesa do comércio além-mar e a supremacia inglesa - hegemónica após Trafalgar (1805) - nos mares, consideravam qualquer aproximação de facto à política continental napoleónica, como pressuposto para a imediata perda das possessões ultramarinas. Os ingleses não tardariam muito em proceder à ocupação ou anexação da Madeira, Açores, Goa e Macau. Eram bem conhecidas as ambições expansionistas na América do Sul que surgia como um perfeito sucedâneo das ainda recentemente perdidas Treze Colónias norte-americanas. Em "A Decadência do Ocidente", Oswald Spengler sublinha o projecto de Hobbes, que visava a conquista inglesa de todo o continente, como condição de uma efectiva hegemonia imperial.
Em 1807 e após o decretar do Bloqueio Continental, a Inglaterra encontrava-se ameaçada e sem aliados na Europa. Não parece lícito trabalhar sobre meras hipóteses. A História faz-se sobretudo, da análise dos factos e da documentação, mas também - e este aspecto tem sido ostensivamente negligenciado desde há mais de um século -, com o estudo comparado de eventos demonstrativos de tendências de políticas, situação económica e social dos Estados e doutrinas prosseguidas por estes. Desta forma, poderemos seguramente proceder a uma análise comparativa de situações ocorridas durante os conturbados anos de 1799-1807: a anexação do Piemonte e de Parma (1802), a ocupação de Viena (1805), de Berlim (1806), a anexação da Holanda e destituição da Casa de Orange (1806), a deposição dos Bourbon de Nápoles (1806) e a destruição da frota dinamarquesa e bombardeamento de Copenhaga pela armada britânica, como represália pelo alinhamento da Dinamarca com a França de Napoleão (1807).
Em Novembro de 1807, a barra do porto de Lisboa, já se encontrava bloqueada por uma poderosa frota britânica, onde os sinais de impaciência pela não clarificação da atitude do governo português - sempre confiante até ao fim na obtenção da manutenção de uma neutralidade negociada -, poderiam ter conduzido a um irreparável desenlace: a captura ou destruição da frota portuguesa e o consequente bombardeamento de Lisboa. Estas chegaram a ser opções ponderadas, no caso do prolongamento de uma já insuportável situação dúbia. Sabia-se da rápida aproximação do exército invasor de Junot e era urgente a concretização daquilo que fora acordado pela chamada Convenção Secreta luso-britânica (22 de Outubro de 1807) que indicava a transferência da família real e do governo para o Rio de Janeiro. Para os ingleses, era crucial a manutenção de um aliado no concerto dos Estados europeus, propiciador de um exemplo de sucesso face às ambições expansionistas da França.
Conhecemos bem os detalhes do embarque e ao longo de um século e meio, sobrevalorizaram-se os aspectos anedóticos que eram aliás, inevitáveis, devido às condições precárias do momento. No entanto, a alegada "fuga" - que jamais ocorreu -, faz--se de uma forma inédita em toda a História europeia: é todo um aparelho de Estado que embarca, a quase totalidade do tesouro e uma inquantificável quantidade de documentos, 60.000 livros da Biblioteca Real e bens sumptuários, enfim, uma sociedade inteira que se traslada para um território longe da rapina inimiga e que se exime também - talvez o aspecto mais relevante para a mentalidade da época -, ao vexame da capitulação. Seria bastante útil, procedermos ao completo levantamento e apreciação da reacção da ainda incipiente opinião pública dos diversos países europeus que, naquele momento de todas as incertezas e temores, decerto vislumbrou o bruxelear da chama de uma resistência à prepotência, latrocínio e violência a que os povos estavam submetidos. Foi na verdade, a primeira vez que Bonaparte não venceu e disso deu testemunho nas suas Memórias.
Muito mais tarde, decorridos cento e trinta anos, outros governos e soberanias imitariam, de uma forma ainda mais apressada e sobretudo, menos digna, o exemplo dado pelo Regente D. João, encontrando novos portos de abrigo onde se eximiram aos ditames do vencedor do momento. A rainha Guilhermina da Holanda e os reis Haakon, Pedro II e Jorge II da Noruega, Jugoslávia e Grécia, respectivamente, puderam organizar a resistência nacional à invasão nazi. A derrota militar foi apenas uma batalha perdida e possibilitaram com essas "fugas", o forjar de armas e exércitos que desafrontaram as suas nações. O Armistício francês de Junho de 1940, foi prenhe de consequências nefastas, das quais a França jamais se libertou e podemos legitimamente imaginar, como teria evoluído a II Guerra Mundial, no caso do governo francês não ter ido à Canossa indicada pela vencedora Wehrmacht.
Podemos apenas imaginar o que teria sucedido se Junot tivesse conseguido executar as ordens recebidas das mãos do seu imperador. O Regente e toda a sua família, conheceriam o mesmo destino dos Bourbon de Espanha, partindo coactos para um incerto exílio em França, onde uma abdicação era a hipótese mais provável. O Brasil tal como hoje o conhecemos, jamais existiria na sua grandeza territorial e talvez, até na sua estrutura e multiplicidade étnica. As ilhas atlânticas, seriam hoje, possíveis territórios da coroa britânica, à semelhança de Gibraltar. Embora a derrota final de Napoleão fosse inevitável - dada a relação de forças em presença e a hegemonia inglesa nos mares -, é lícito questionar, se Portugal não teria um destino semelhante ao da Noruega, Finlândia ou Polónia, que no Congresso de Viena, foram sacrificadas às razões do equilíbrio de poder na Europa e à política de simplificação do mapa e de compensações.
Pelo contrário, a declaração de guerra à França - assinada já pelo Regente na sua nova capital além-mar -, possibilitou a manutenção da legitimidade e existência do Estado como entidade soberana. O levantamento nacional, a organização de um exército que foi um instrumento precioso sob o comando de Wellington, garantiram a presença de Portugal na Grande Mesa do Congresso, ao lado da Inglaterra, Rússia, Áustria, Prússia, França e Espanha. Foi talvez, o momento áureo da velha aliança luso-britânica e do efectivo nascimento do Brasil como nação internacionalmente reconhecida, com o nome de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.
O Regente D. João prestou um grande serviço ao país, e ao fazê-lo, criou uma segunda uma segunda Pátria que é também de todos nós. O Brasil, como diz aquele bem conhecido Fado Tropical, talvez ainda se ..."vai tornar num imenso Portugal"... É esta a nossa garantia de sobrevivência como cultura, língua e destino, que são ímpares na Europa. No passado sábado, estava - sei eu lá porquê? - hasteada uma bandeira brasileira na grande varanda do Palácio de S. Bento. Naquele momento de passeio por Lisboa, recordei agradecido, a decisão tomada numa hora de grande comoção nacional. Se pudesse ter visto a fachada do Parlamento, D. João VI teria sorrido com bonomia. A prudência e a memória eram duas das suas grandes qualidades. Saibamos aproveitar o precioso legado.
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