
Outro repeteco, matéria do jornal RaioX de 2003. A foto é da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, um verdadeiro tesouro deste país.
Tempos atrás me envolvi numa polêmica com um indivíduo que me criticou abertamente porque, segundo ele, ao defender o rigor do Exame de Ordem da OAB, eu estaria "fora de uma realidade" que eu não queria admitir.
Ele saiu em defesa de um terceiro que declarava se recusar a prestar o "esame" da OAB, por achá-lo fraudado e difícil demais. Disse que ainda que não há problema algum em um advogado que não saiba escrever (especialmente a palavra exame), porque a Justiça "é feita pelos juízes" e estes sim é que têm o dever de estudar e ter cultura.
Diante dos "argumentos" do meu detrator, deixei a discussão de lado, porque constatei ser ele um ignorante orgulhoso de sua condição. Em outras palavras, o pior tipo de ignorante.
Não sei se é o momento que vive o país, que passa por uma epidemia de burrice e vulgaridade (vide: o funk carioca, pagode, Big Brother, os sertanejos de chapéus atolados, o excesso alcoólico que anda sendo tolerado pelas pessoas como coisa normal, etc...) e é governado por um partido onde as luzes intelectuais deram lugar à politicagem mais rastaqüera. Mas tenho constatado quase todos os dias a defesa da ignorância, porque, segundo os que a defendem, ela é uma realidade da qual não se pode fugir.
Sinceramente, todas, absolutamente todas as coisas boas da humanidade saíram das mentes brilhantes de pessoas cultas, estudiosas e capazes. A religião católica são seria o que é sem a pregação filosófica e altamente estruturada de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. O evangelismo universal não existiria sem Calvino e Lutero. O progresso tecnológico, científico e médico não existiria sem pessoas que passaram a vida estudando, como Isaac Newton, Darwin, Galileu Galilei, Da Vinci, Albert Sabin, Marie Curie, Einstein, Freud, etc... Ademais, o que seria da cultura universal sem Cervantes, Shakespeare, Homero, Balzac, Mozart, Strauss e Beethoven, entre outros milhares de estudiosos geniais da raça humana?
Dias atrás, o professor Renê Dotti, em entrevista para a Gazeta do Povo e do alto de toda a sua cultura e capacidade, tratando da advocacia defendeu a idéia absolutamente irretocável de que todo o bom advogado não só estuda a vida inteira adquirindo formação jurídica, ao mesmo tempo em que adquire cultura geral, sem a qual é incapaz de atacar os grandes problemas decorrentes da interpretação da Lei ou mesmo da sua ausência sobre certos assuntos.
Constatei estar em boa companhia em minhas opiniões.
Mas vamos mais longe. A China, talvez o país de economia pais pujante da atualidade, investe bilhões em educação e cultura, enchendo suas 1450 universidades de mestres e doutores vindos do exterior, universalizando ao máximo o saber e a cultura, mesmo que isso signifique, no médio prazo, o fim do comunismo, que morreu no ocidente entre outras causas, justamente porque fortaleceu as políticas educacionais e culturais que formaram os líderes da oposição que lentamente demoliu a Cortina de Ferro.
Mais que isso, o mundo foi salvo do nazismo, cujo líder máximo era um indivíduo completamente avesso à cultura (mandou queimar bibliotecas inteiras em praça pública e proibiu a arte moderna, chamando-a de "degenerada"), basicamente pela perseverança, cultura e sagacidade de Winston Churchill, um dos mais brilhantes políticos e historiadores de todos os tempos (prêmio Nobel de Literatura em 1954), que muito, mas muito antes do início da guerra, já apontava que o nazismo era um regime de ignorantes que poderia destruir o mundo, como, constatou-se, quase conseguiu.
Chego à conclusão de que nunca estive fora da realidade.
Assim como bons advogados são fruto de estudo e sólida formação jurídica e cultural, de um tal modo que não é o Exame de Ordem (cujo conteúdo é o óbvio jurídico, o mínimo indispensável para se peticionar em um tribunal) que deve assustar os bacharéis capazes, o mundo só é o que é graças à inteligência e ao conjunto de sua cultura.
Negar isso é admitir uma era de trevas, uma segunda Idade Média (se bem que esta eu cito como símbolo pois, na prática, foi também uma época de grandes conquistas) que levaria o mundo a perder todas as coisas boas e úteis, as quais nem sempre percebemos, não foram criadas por ignorantes defensores da propagação da burrice.

Dicas de leitura sobre cultura geral:
- GAARDNER, Jostein - O Mundo de Sofia - Uma Aventura na Filosofia.
- FRIEDMAN, Thomas L. - O Mundo é Plano.
- MANGUEL, Alberto - Uma História da Literatura.
- TRUYOL Y SERRA, Antonio - História da Filosofia do Direito e do Estado.
- LACEY, Robert - O Ano 1000.
- FRUGONI, Chiara - Invenções da Idade Média.
5 comentários:
Já pregava -muitas vezes no deserto - o grande Lobato: "Um país se faz com homens e livros".
Estou certo que, se fosse vivo, ele assinaria embaixo suas palavras, do mesmo modo que eu faço. Parabéns!
Acho que por seleção natural o mundo será dos inteligentes.
Um abraço!
Concordo com o René Doti e digo mais, todos os profissionais devem se atualizar sempre. Senão ficam ultrapassados. A cultura é menosprezada por profissionais de várias áreas, por isso alguns deles não têm uma visão de mundo completa. Estudar outra língua, viajar, pesquisar a origem dos seus próprios sobrenomes é um começo.
Adorei esse texto!
Ah, não, né, ô meu! Isso aí é muidifisss...
Estou aprendendo(ou estou a aprender?rsss)...Vou procurar "O mundo é plano".Boas dicas.
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